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Que empreendedor do nosso tempo será lembrado pela História, no futuro?

Não importa em que lugar do mundo você esteja agora. Onde quer que seja, você está pisando na História e sendo parte ativa dela. E mesmo que você não faça nada em sua vida com a intenção de ser lembrado no futuro, você será parte da História do seu tempo.
Ao pensar que apenas vivendo você já é agente da História me faz olhar para o passado, para as pessoas que apenas vivendo, fazendo o que era preciso fazer ou fazendo o que eram forçadas a fazer por força das circunstâncias, estão mudando nosso tempo sem que, na maioria dos casos, um dia tivessem pensado nisso.
E como é interessante que cada um que conta uma história reverencia alguém com quem é afim, com seu modo de pensar e/ou de fazer as coisas, e que, de uma hora para a outra, deixa o ostracismo para ser referência de práxis e comportamento. Nós fazemos isso todos os dias.
Tenho questionado meus familiares, primos e amigos sobre como gostariam de ser lembrados, após deixarem esta experiência de vida para trás. Não tenho tido resposta. E sei bem o motivo: não estão pensando em ser referência de coisa alguma. Talvez por isso não sejamos um povo que goste de registrar e de guardar a história para os que virão depois. Mas não importa. Apesar de o mar um dia apagar as pegadas na areia da praia, o tempo nunca apaga um caminho percorrido.
Há caminhos para todas as direções. Qual é o melhor caminho? Faço-me essa pergunta todos os dias, após ter a consciência de que ainda estou por aqui. A resposta a cada dia é diferente. Em geral a reposta é mais ou menos essa: “O melhor caminho é o que te faz caminhar”, que te faz experienciar cada passo, a descoberta, os encontros, as sincronicidades, os contextos, as escolhas, as consequências, os aprendizados. Não importa qual direção porque não há direção correta e nem errada. Um caminho é qualquer caminho.
Lendo a trajetória de vida e profissional de um dos influenciadores do Brasil recém-nascido, alguns falarão: “não construiu nada; não fez fortuna”. Outros dirão “não teve foco”. Ainda outros falarão “empreendeu muito”. Quais das três visões estão corretas? Como me disse o diretor do Instituto Xerox, à época em que estava escrevendo minha dissertação de mestrado em Administração (2001), “isso depende da teoria de momento, de quem escreve”. Teria sido Manoel de Araújo Porto-alegre um grande empreendedor do seu tempo? Ou teria sido ele um grande desfocado que não construiu riqueza para si e para seus descendentes?
A existência de Araújo Porto-alegre só pode ser analisada dentro do contexto do seu tempo: político, social, econômico, cultural, familiar, pessoal. Ele nasceu em 1806 numa cidade gaúcha conhecida à época como “Tranqueira Invicta” e morreu em 1879, em Lisboa, em seu posto como Cônsul Geral do Império. Ao longo de sua vida exerceu pelo menos 17 profissões; foi co-fundador de influentes instituições no Brasil e no mundo, dirigiu organismos do Império, foi sócio de quatro revistas e sua influência e pensamento se estenderam até a primeira metade do Século XX. Nossa cultura, arte e educação devem muito a ele nos primórdios do Brasil independente. A concretização de seu pensamento assentou bases para a educação artística, poesia, jornalismo, arquitetura, urbanismo, cenografia, gestão. Ele é mais conhecido pelo que fez nas artes plásticas e na literatura, sendo homenageado pos morten com a imortalidade da Cadeira 32, da Academia Brasileira de Letras. No entanto, foi pioneiro em vários campos: primeiro caricaturista do Brasil; foi o primeiro na fusão da arte com a ciência no Brasil; primeiro crítico de arte; primeiro crítico musical; fundador do Romantismo na pintura brasileira; criador da expressão “Barroco”, para separar a arte colonial brasileira da de seu tempo; criador da expressão “Brasiliana(s)”, que atribuiu à coletânea de seus poemas dedicados aos amigos, desde Suas Majestades Imperiais D. Pedro I e D. Pedro II aos diversos Grandes do Império.
E será que ele pensou em realizar todas essas coisas olhando para o que iriam dizer dele no futuro ou para ganhar dinheiro? Certamente que não. Ele apenas viveu, aproveitou as oportunidades que lhe apareceram e as que seu espírito curioso e criativo lhe permitiu vislumbrar. Também fracassou algumas vezes e se levantou em todas elas. Tudo isso e ainda sendo probo, reto e controvertido. Como todos que possuem essas características, fez muitos amigos e outro tanto de inimigos e invejosos. Não fosse por isso, talvez estivesse esquecido numa prateleira empoeirada dos escaninhos da História.
Mas quantos dos empreendedores do nosso tempo serão lembrados num futuro próximo pelo que estão fazendo? A imortalidade da História está para aqueles que se devotaram a viver, a experimentar, a assentar bases sólidas para o futuro da coletividade e que não tiveram medo do escárnio ou das teorias do momento, dos modelos de interesse privado, superficiais e temporários, que alimentam o “baú de grandes novidades” que a todo o momento vemos surgir nas mídias sociais e geral.

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