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Startup não é religião

Por Eduardo Nogueira



Há tempos que venho querendo escrever a esse respeito, mas não havia uma boa oportunidade para falar sobre isso. Mas, graças às denúncias feitas pelo Guto Ferreira em seu bombástico artigo publicado hoje, o assunto se tornou mais do que necessário.
Podemos dizer que nosso ecossistema de inovação e empreendedorismo já está de pé faz uns 15 anos, mas teve forte impulso após a crise de 2008, quando apenas o Brasil não foi impactado por ela, por "decreto presidencial", e apelidada de "marolinha". Para o Brasil correram todos os capitais, dos produtivos aos especulativos, e com eles veio uma sede de ganhos rápidos e exponenciais. A mídia, cumprindo seu papel dúbio, tratou de incentivar o "empreendedorismo de inovação tecnológica disruptiva de crescimento exponencial". De uma hora para outra a gente deixou de ver as micros e pequenas empresas como as salvadoras da economia para colocar esse guizo nas startups.
Foi um pouco depois da "marolinha" que me interessei por ingressar no ecossistema empreendedor, mais precisamente após o presidente da época ir à TV e dizer que o Brasil deveria ser "um exportador de tecnologia e importador de royalties". E então me perguntei, como faremos isso? Entrei para o ecossistema em busca de responder a essa pergunta e buscar o meu espaço nele.
Logo vi o pujante movimento das startups. Fui conhecer algumas incubadoras e estudar como países de primeiro mundo e os emergentes (como nós) estruturaram seus ecossistemas. Neste tempo, no Brasil, ainda não haviam aceleradoras. Uma coisa que percebi nessas pesquisas é que nos ecossistemas de países de primeiro mundo o empreendedorismo já está consolidado, pois são países que apoiam o livre mercado. Ou seja, há um profissionalismo enorme. As coisas não são feitas ao acaso e há em todos eles uma Política de Estado subsidiando cada um, como são os casos de China, Coréia do Sul, Israel, Irlanda e Portugal, só para citar alguns. Ou seja, o empreendedorismo está a serviço dos desafios do país, uma vez que é Política de Estado. O ganho individualizado está na maturidade e profissionalização dos agentes que nele atuam. No Brasil, o ecossistema de inovação surgiu de uma janela de oportunidade, criada pela "marolinha" artificial de Estado.
Vi nascer a ABSTARTUP, Anjos do Brasil e a chegada das aceleradoras. Vi nascer o primeiro programa público de aceleração, o Startup Brasil, ideia inteligente do Felipe Matos, que gerou frutos e muitos aprendizados, e depois dele o InovAtiva Brasil. Posso dizer que de um desses aprendizados é que surgiu a Associação Brasileira dos Mentores de Negócios - ABMEN, por exemplo. Estávamos começando a institucionalizar o ecossistema de inovação e empreendedorismo.
Mas, logo se definiu que o ecossistema seria de startups, abrindo mão da necessidade primeira do Brasil a frente: de reempregar os desempregados da "marolinha" de 2008-2014. O Estado (âmbitos federal, estadual e municipal) chegou tarde e não foi protagonista; ele ajudou a impulsionar a distorção estabelecendo uma divisão de classes no movimento empreendedor: a classe das startups "disruptivas e inovadoras" e o resto. Ajudou a criar a Religião Startup e tratou de mandar dinheiro para algumas "igrejas" mais proeminentes.
O ecossistema de inovação e empreendedorismo deveria ser Política de Estado no Brasil, tanto a nível federal quanto estadual e municipal. Ou seja, pensado e fomentado estrategicamente, mas com a operação distribuída entre os agentes institucionais privados do mercado, pois o que são gerados neste movimento são negócios com finalidade lucrativa. Quando o estado entra e se mete, os papéis se confundem e os oportunistas se aproveitam.
Se queremos realmente mudar esse País e torná-lo grandioso, não apenas nas dimensões territoriais e no agronegócio, precisamos adotar medidas para profissionalizá-lo. E quando falo de profissionalização me refiro não apenas à gestão dos organismos e entidades que são agentes dele, mas também de banir a ingenuidade e os aproveitadores. E neste aspecto estou me referindo ao emprego de práticas danosas ao ecossistema como o pro bono e ao give-back obrigatório, dois temas que não me canso de falar nos meus artigos.
No mundo dos negócios nada é de graça, nem cafezinho na porta do restaurante, balinha em forma de troco, degustação etc., ...a lista é grande. Tudo isso tem custo e alguém vai pagar. Alguns espertos fizeram do give-back obrigatório a moeda de troca para participar do ecossistema sem ser uma startup ou organismo. E os aproveitadores da ingenuidade alheia instituíram o pro bono e o networking "na geral do Maracanã" como paga pelo conhecimento entregue nas sessões de mentoria, e isso se tornou um padrão nesse ecossistema. De que maneira estaria o Brasil e os empreendedores verdadeiramente se beneficiando disso? Os espertos agradecem. Conhecimento custa caro e entregue de mão-beijada é sempre bem-vindo!
A denúncia lançada bombasticamente pelo Guto deve ter um propósito, que eu desconheço. Independentemente de qualquer coisas ela é grave. Mas também é resultado esperado, por estarmos tratando de um assunto relevante para o Brasil de forma tão amadora e descompromissada. Vai servir de aviso e de reflexão para todos os envolvidos de que não podemos seguir adiante sem pensar em torná-lo um verdadeiro ecossistema (na sua acepção mais profunda), plural, equânime e profissional.
Sobre give-back recomendo a leitura da sequência de artigos "As Pimentinhas do Yuri (parte II)".

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